Diz aquela máxima da biologia: "na natureza, nada se cria, nada se destrói; tudo se transforma". Não sei quem foi o gênio que conseguiu resumir algo tão grande em tão poucas palavras, mas o autor incluiu aí também o mundo das ideias, intencionalmente ou não.Não existe ideia inédita, é tudo uma versão de uma adaptação de um conceito que foi repassado de algo que já existiu e que derivou-se de outra coisa. Isso vale para todos os ramos de atividade dessa vida severina, mas é especialmente representativo do ramo das artes. Tive um professor no curso de cinema que dizia que todas as histórias estão na Bíblia, nada mais foi criado desde então. E eu rebato dizendo que a Bíblia também não foi inédita; os contos das mil e uma noites são muito mais antigos. Aí a gente passa para os mitos milenares de diversos povos de diversas culturas. Seguindo essa linha de raciocínio, os únicos artistas originais foram os homens das cavernas, quando pintaram as paredes de suas moradas – e eram inéditos simplesmente porque não eram precedidos por ninguém.
Diversos estudos sobre esse assunto já foram feitos, claro; isso não é, nem a pau, uma ideia inédita. Essa linha de raciocínio é a "angústia da influência". Nada do que produzimos é realmente novo, e somos infinitamente influenciados pelo que veio antes, de maneira consciente e inconsciente. Joseph Campbell conseguiu definir uma estrutura que vale para 80% das histórias de hoje em dia, a tal da jornada do herói. Outra teoria (não me lembro de quem, talvez do próprio Campbell) afirma que existem apenas 52 tipos de histórias. Uma mais radical ainda diz que são apenas nove. E, pensando bem, se você resumir o tema de uma história a apenas uma palavra, poucas vezes chega a algo que não seja um dos sete pecados capitais, que surgiram de tabus sociais também milenares. E, fora do ramo "criação artística" e dentro do (mais vago) universo das ideias, ninguém surgiu com nada muito relevante desde os grandes pensadores que datam de milhares de anos atrás – e que estudamos até hoje.
Nós somos a ponta de uma longa linhagem e nunca conseguiremos nos desvencilhar dela.
Outro professor meu disse que essa constatação serve de alívio para os criadores. Eu, que estou sempre enfrentando o tracinho piscante de um programa de texto para escrever algo que preste, ainda sinto uma agonia tremenda de constatar que nada do que eu penso é inédito, inclusive o pensamento de que meus pensamentos não são inéditos. Mas esse professor afirmou que isso liberta – se é impossível criar algo novo, relaxe e apenas crie. Deixe rolar.
Aí, talvez na tentativa de manter a esperança de ineditismo, digo que, se estamos condenados a contar tudo o que já foi contado, o que pode ser original é a maneira de contar as coisas.
Li, pela indicação de um colega, um texto de Inácio Araújo, crítico da Folha, desmerecendo A Origem, filme de Christopher Nolan que está em cartaz. Para ele, o filme é uma história repetida que complica o que não precisa ser complicado e, portanto, foge da essência. Eu acho uma pena ele enxergar o filme dessa maneira (e também diminuir outro filme ótimo do diretor, Amnésia), mas até concordo que a história é um assalto mirabolante turbinado por conceitos pouco comuns no gênero. Só que aí entra a forma.
"O que" é contado não é necessariamente novidade, mas "como" é contado é o que vale. O filme pega essa ideia inevitavelmente reciclada (como são todas hoje em dia, de acordo com a angústia da influência) e a faz parecer nova. Assim, prestamos atenção nela. Já vimos incontáveis assaltos difíceis. Já vimos incontáveis personagens traumatizados com um erro do passado. E daí? Se você assiste A Origem e nem percebe isso, é porque alguém pegou uma ideia repetida, colocou sob uma nova ótica e o fez repensar sobre um assunto que, teoricamente, você já está cansado de ver. O resultado, para mim, é um dos melhores filmes em anos.
É o mesmo caso de Toy Story 3 (que é uma continuação – o cúmulo da influência de uma ideia anterior): uma história de fuga de prisão cujo tema, sobre a dificuldade de crescer e a dor da inevitável separação, já apareceu de centenas de formas diferentes. Mas essa história é contada com uma originalidade tão arrebatadora, que se destaca da massa de ideias recicladas e torna-se um clássico.
O que fazer perante A Origem e Toy Story 3? Aproveitar a sensação de novidade e apreciar a capacidade de seus criadores de fazer algo que renova uma dessas ideias que surgiram sabe-se lá quando e das quais não conseguimos nos livrar. Isso é raro.
Não sei muito bem o que estou querendo dizer. Acho que estou concordando com a angústia da influência (mesmo que ainda seja difícil aceitá-la) e elogiando a originalidade da forma, que é o que importa hoje em dia. Destrinchar todas as histórias para descobrir sua origem (sem trocadilhos) só serve para estragá-las, especialmente se elas conseguirem nos fazer repensar em algo que está entre nós faz séculos e que, por causa da repetição da forma, acabamos por ignorar. E proponho: se não podemos ser originais no conteúdo, sejamos originais na forma.

Gostei do seu texto. Vc escreve muito bem ao defender suas ideias. Lamento não concordar com tudo... mas isso é pra um papo pessoal... saudações.
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