Fiz recentemente (a última aula acabou faz três horas!) um curso de diálogo para cinema e TV com a sensacional Adriana Falcão, que escreve há dez anos os diálogos de A Grande Família. Ela propôs um exercício: deveríamos reescrever uma das cenas do filme Houve Uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado (sem ver a cena antes). Tratava-se de uma conversa entre dois adolescentes de 15 anos. Um deles era virgem e o outro, o protagonista, havia perdido a virgindade na noite anterior.
Os participantes entregaram suas cenas e Adriana foi comentando uma por uma, com feedback dos alunos também. Uma das cenas mais legais trazia um diálogo honesto, direto e interessante entre os dois meninos. Muita gente, inclusive Adriana Falcão, comentou que o texto parecia genuíno, não era um adulto tentando soar como adolescente. Legal. Uma moça apresentou-se como autora e disse que tentou pensar como um menino de 16 anos para compor a cena.
E, em seguida, falou que os homens não sabem expressar seus sentimentos, não se alongam em conversas e nunca admitem uma paixão – e isso é pior ainda com um adolescente. Foi nisso que ela se baseou para escrever o texto que todos haviam curtido.
Preconceituoso, não? E até paradoxal. Ela fez um texto legal, que soou verdadeiro, baseando-se em diversos conceitos retrógrados de desigualdade entre os sexos.
Em outro dia do curso, a mesma moça fez um comentário sobre uma cena de outra pessoa, que incluía a palavra "mamilo". Ela disse que homem nem sabe o que é mamilo, ainda mais um menino de 16 anos. Na hora, ficou mais ou menos entendido que ela acreditava que um adolescente usaria outra palavra, talvez "bico". "Mamilo" seria "técnico" demais. Sei lá. Só sei que soou como preconceito, mais uma vez.
"Isso é feminismo", pensei. E caiu uma ficha.
O termo "feminismo", apesar de ter o mesmo sufixo da palavra "machismo" (e de diversos "ismos" com conotação negativa), é sempre encarado como um ato heróico de emancipação feminina. Eu acho maravilhoso que as mulheres lutem por seus direitos e torço muito por um mundo igualitário (não só em termos de gênero), mas existe o "feminismo" escroto, uma versão feminina do tal "machismo", que a moça do curso exemplificou tão bem. É o feminismo que denigre o homem, que acha que as mulheres são superiores e que os homens são apenas portadores de sêmen – o equivalente na mulher do típico homem machista.
Na mesma moeda, a palavra "machismo" é sempre vista como negativa, e eu concordo, na maioria das vezes. Mas, se eu tivesse levantado minha mão e reclamado dos comentários preconceituosos da moça, eu teria sido machista, mas no bom sentido, no sentido equivalente ao "feminismo" positivo. Um machismo bom, que defende as qualidades do homem e que não gosta que digam que homem é tudo escroto e não sabe o que é mamilo.
Percebi, também, que não pensei nos personagens como "meninos", pensei como personagens, com suas características e motivações próprias. Também não enxerguei as pessoas do curso como "homens" ou "mulheres", mas sim pessoas, que podem ser escrotas ou ótimas, independente do sexo. Gosto de acreditar que enxergo o resto do mundo assim também. O sexo como gênero só deveria fazer alguma diferença quando há sexo como prática envolvido, ou seja, quando as pessoas vão atrás do que desejam para satisfazê-las fisicamente, e também quando surgem óbvias questões biológicas.
De resto, as diferenciações entre homens e mulheres, tanto para os "machismos" quanto para os "feminismos" me parecem coisa do passado – tudo achismo.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
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Sensacional, tava fazendo falta o blog!
ResponderExcluirFiquei feliz por perceber que as postagens voltaram só dois dias depois que foram feitas (mesmo só tendo resolvido comentar agora).
Não poderia concordar mais com o texto e novamente fico feliz que alguém soube expressar isso, e tão bem!
Saudade, Cine,
Abraço!