quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cinema (opinião): Alice no País das Maravilhas

Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, é um fenômeno cultural. Isso já está bastante óbvio.

Sessões lotadas até meia noite, dezenas de relançamentos das obras originais, influências na moda e na cultura em geral; o filme carrega tudo isso nas costas. Quem diria – o diretor, então considerado um renegado cult da indústria, está com tudo. O emo virou pop; o gótico virou senso comum. E Alice mantém sua relevância, mesmo depois de 145 anos de sua estreia.


Pena que o filme é uma porcaria.


O rei está nu. As pessoas ficam maravilhadas (sem trocadilhos) com seu visual, que é, de fato, espetacular, mas parecem ignorar o fato de que é uma produção absolutamente vazia, incapaz de despertar uma emoção sequer. Eu amo o material de origem, amo a iconografia da obra de Lewis Carroll, seu surrealismo (ou seria "surrealidade", já que "ismo" tem conotação negativa?), seu descompromisso com a sanidade. E, de um jeito frio e reciclado, isso tudo está presente no filme de Tim Burton. Com a exceção do figurino da própria Alice (que consegue ser pior do que o de Sex and the City), é uma produção visualmente deslumbrante e imaginativa. Mas e daí?


Em entrevistas, o diretor afirmou que foi difícil transformar a história de Alice em algo que não fosse uma sequência de episódios aparentemente desconexos e, para tanto, criou um "destino" para a personagem, que precisa salvar o País das Maravilhas do reinado tirano da Rainha Vermelha (uma mistura da Rainha Vermelha de Alice Através do Espelho e o que Ela Encontrou Por Lá e da Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas), cuja oposição é sua irmã, a Rainha Branca (de Através do Espelho). Só nessa premissa já há dois equívocos: colocar Alice como salvadora e polarizar o universo dos livros. Há os que seguem a Rainha Vermelha e os que se juntam à resistência e seguem a Rainha Branca. Simplesmente não funciona, parece uma simplificação da moral discutida nos livros.


E os problemas continuam. O mais grave está relacionado a dois personagens importantíssimos. Primeiro, a Rainha Vermelha. Mesmo com o ótimo visual, o timing cômico de Helena Bonham Carter e as piadas em relação ao tamanho de sua cabeça, a personagem se perde ao questionar o próprio autoritarismo (dessa vez com "ismo" mesmo). Se há alguma coisa absoluta nos livros é a Rainha, e fazê-la questionar se prefere ser "temida ou amada" é praticamente imperdoável. E o mesmo vale para, tcharam, o Chapeleiro, a grande cartada de marketing do filme. Ando enjoado de Johnny Depp, mas ele veste o papel de tal maneira que é impossível imaginar outro ator em seu lugar (e olha que li que Dwayne Johnson – sim, o "The Rock" – estava cotado para fazer esse personagem...). Porém... ele questiona a própria sanidade. Isso é um absurdo que até ofende, e deve ter feito o Sr. Carroll pleitear uma ressurreição só para chutar a bunda de Tim Burton.


Para piorar, há muitos furos no enredo, uma forçada de barra para transformar tudo em uma "aventura épica" (inclusive na trilha sonora, que parece algumas batidas mais acelerada do que o que se passa na tela) e clichês dolorosos de se ver. A desculpa de que Alice não se lembra da primeira vez que caiu pela toca do coelho é vergonhosa, justificativa para eles repetirem várias cenas dos originais. Por que não fazer uma adaptação direta, se é para repetir?


Há também o desperdício de Mia Wasikowska, uma das atrizes mais talentosas de sua geração (veja sua participação na série Em Terapia para entender o que estou falando), que está tão expressiva quanto um bloco de gesso. Chega a ser irritante.


Enfim, depois de todo esse desabafo, parece que odiei o filme – e, de fato, não gostei. Mas, ao longo da projeção, você não chega a odiá-lo. É tão nulo, tão vazio, que é praticamente um intervalo comercial. Você está lá, olhando para a tela, e mal percebe que está jogando a vida fora. Parece que o foco de sua atenção acaba divagando para alguns centímetros atrás da tela, e o filme está simplesmente na sua frente. Depois que saí do cinema e fui constatando esse fato, fiquei decepcionadíssimo, especialmente considerando o brilhante material de origem. Não sei se foi só culpa do Tim Burton, acho que tem dedo da Disney (a distribuidora) por aí.


Ah, e vale dizer que Alice já havia ganhado uma continuação em 2000, em forma de game: American McGee's Alice. Por motivos diferentes do filme, Alice volta ao País das Maravilhas e também encontra a Rainha de Copas ainda mais louca, tiranizando toda a população. É ótimo, tem uma trilha sonora incrível e não comete vários dos erros (estou evitando uma palavra mais grosseira, que começa com "ca" e termina com "gadas") do filme de Tim Burton. Quem se interessar pode ver um trailer aqui e a abertura do game aqui.




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Alice no País das Maravilhas

(Alice in Wonderland, 2010, 108 min.)

Dir. Tim Burton

Com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter


Recomendado? Não. Se você faz tanta questão de conferir o visual, espere sair em DVD.

1 palpita, coração!:

  1. É, não fui o único então. Saí do cinema decepcionado e espalhando minha indignação pelo mundo, enquanto os que viram apenas os trailers ficavam confusos (os trailers são muito bons, não da pra negar) por eu ter achado o filme horrível.

    O visual é indiscutivelmente fantástico, nos primeiros minutos de filme ja fica na cara que é Tim Burton (claro que tem o dedo de dois artistas geniais ajudando ele: Bobby Chiu e Michael Kutsche), mas sinceramente, achei o filme dispensável pro currículo dele.

    Abs.
    ;)

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Palpita, coração!